quarta-feira, 3 de julho de 2013

O EUROPEU E SEU CONCEITO DE CIVILIDADE





Neste capítulo temos o objetivo de mostrar como as transformações econômicas e sociais que ocorreram na Europa, entre os séculos XIV e XVI, propiciaram ao homem da sua época uma nova forma de ver o mundo e de conhecer a si próprio como o outro, pois em meio a toda essa gama de desenvolvimento buscava-se o “homem” perfeito, o modelo ideal de civilidade, pronto a usufruir de todos os benefícios que esse desenvolvimento podia lhe ofertar. Também trataremos a respeito das continuidades que se observaram nesse período, herdadas principalmente do medievo.
A ideia de ruptura esta muito atrelada a este período, é corriqueiro vermos na historiografia a descrição do período hoje denominado “Idade Moderna”, iniciado a partir do século XIV, como sendo de total ruptura com o período predecessor a ele, hoje chamado na historiografia de Idade Média, quando na realidade trata-se de continuidades. Os períodos anteriores foram responsáveis por preparar o território para que o desenvolvimento econômico e, consequentemente, científico acontecesse. Porém, o medievo foi rotulado como período trevoso e supersticioso quando relacionado a conhecimentos, por parte dos homens ‘modernos’.
Podemos perceber, no entanto, que a Idade Média também teve seus ‘renascimentos’, dando destaque aqui ao período Carolíngio. O Império de Carlos Magno teve uma evolução nos conhecimentos, graças a reformas que foram executadas na educação, servindo posteriormente como modelos para outras escolas, abrindo caminho para outro episódio, o Renascimento do século XII que segundo Jeffrey Richards (1993, p. 13) “O século XII foi outro desses períodos. Assistiu a uma curva ascendente de auto-expressão na religião e na sexualidade, com homens e mulheres buscando explícita ou implicitamente maior acesso a Deus e maior controle de seus corpos”.
Esse período desfrutou dos resultados obtidos através das cruzadas, as antigas rotas de comércio foram reabertas, que antes estavam inutilizadas por ocasião da dominação do islã em seus territórios. Com sua reabertura foi possível resgatar as rotas de comércio entre a Europa e o Oriente que se faziam através do Mar Mediterrâneo, reativando a economia europeia a partir dos séculos VIII e IX.
Nos séculos XI e XII, começaram a ocorrer várias mudanças sociais, políticas e econômicas. Evoluções técnicas possibilitaram o cultivo de novas terras e aumentaram a diversidade dos produtos agrícolas, sustentando uma população que crescia rapidamente. O crescimento populacional e consequentemente o aumento da produtividade agrícola permitiram um fortalecimento da vida urbana. As cidades cresceram e tornaram-se centros de comércio e artesanato, abandonando a sua dependência agrária, em torno dos castelos e dos mosteiros. Muitas cidades europeias, chamadas de burgos, acabaram por tornarem-se livres das relações servis e do domínio dos nobres (senhores feudais) se transformando em ilhas de capitalismo em um continente feudal. Devido a grande produção agrícola, estavam surgindo estoques de muitos produtos, onde eram mais que suficientes para a população, gerando um grande excesso, favorecendo para que esse excesso fosse comercializado. O comércio estava em franca expansão e se impôs como uma das atividades econômicas mais determinantes da sociedade. Segundo José Américo Motta Pessanha (1985, p. 19):


Surge então uma nova fase dentro da Idade Média, dotada de dinâmica social mais intensa e cada vez mais distanciada dos padrões da Idade Média primitiva de base fundamentalmente agrária, fechada numa economia dominial imposta pelo cerco estabelecido pela expansão do Islã.


Nessa Idade Média considerada “primitiva” todas as atividades comerciais de cunho urbano foram drasticamente reduzidas, o artesanato e o comércio haviam decaído e se reduzido enormemente, ao mesmo tempo em que o vínculo à posse de terras aumentava, a economia havia se tornado de base agrária e nessas condições o poder político ficara estreitamente ligado à posse de terras. A estrutura social tinha se constituído hierarquicamente com pouquíssima possibilidade de mudanças de níveis sociais, o topo da pirâmide era ocupado pelos grandes donos de terras, os senhores feudais, e pela Igreja Católica, que era a maior detentora de terras. Ao levarmos em conta uma Europa que havia sido completamente ‘barbarizada’, percebemos que todo o conhecimento foi resguardado pela Igreja Católica, que passou a deter quase que exclusivamente de todos os instrumentos culturais da época.
Vale ressaltar que na época esse contexto não se generalizou por todo o continente europeu, notamos áreas em que o comércio se realizava de forma intensa, como é o caso dos países próximos ao Mar do Norte, como também em Veneza, que continuou com seus contatos comerciais com o Oriente. José Américo Motta Pessanha (1985, p. 22) afirma que:


Isso porque o cerco imposto pelo Islã e o bloqueio das rotas comerciais através do Mediterrâneo não impediram que intenso comércio permanecesse ocorrendo no mar do Norte, nem que Veneza mantivesse contatos comerciais com o Oriente. Assim, não é de admirar que, após a reabertura das velhas rotas comerciais devido às cruzadas, a dinâmica social dessas regiões, já economicamente diferenciadas dentro do panorama da primitiva Idade Média, se intensificasse ainda mais, ensejando a germinação de novos valores sociais e a elaboração de ideias inovadoras e novos cânones para nortear e valorar as diversas atividades humanas.


Por causa desse contraste é que percebemos porque as ideias renascentistas surgiram com mais força nessas áreas, se destacando os ingleses e os italianos. Voltando ao renascimento do Século XII, percebemos que com o restabelecimento do comércio com o Oriente e o desenvolvimento das cidades, começaram a ser derrubadas as bases da organização feudal. Na medida em que aumentava a demanda de produtos agrícolas para a alimentação da população urbana, elevou-se o preço dessas mercadorias, permitindo aos camponeses maiores fundos para a compra de sua liberdade. Ao mesmo tempo, a expansão do comércio e da indústria criou novas oportunidades de trabalho, atraindo os servos para as cidades. Esses acontecimentos, aliados à formação dos exércitos profissionais e à insurreição camponesa, contribuíram depois para o declínio do feudalismo europeu, que viveu seu auge nesse período prévio ao renascimento.
Podemos perceber que a Idade Média vai além dos estereótipos criados para designá-la, notamos que ela foi dinâmica, fortemente criadora, mas por uma série de fatores isso foi sufocado, fazendo cair sobre ela o título de ‘Período das Trevas’. Para entendermos melhor, vamos ao século XIV.  A população europeia teria atingido números altíssimos para a época, cerca de 80 milhões de habitantes, segundo alguns, o continente estava superpovoado. Ocorre, então, uma sensível piora climática, que dificultou a agricultura e a produção de alimentos. Períodos de fome como o de 1315-1317, eventos catastróficos como a Peste Negra, além de conflitos como a Guerra dos cem anos, causam abalos nas estruturas da sociedade e trazem um forte baque no ciclo de prosperidade que havia se instalado. Algum tempo depois esse baque seria superado, mas então já estaremos na transição da Idade Média para a Idade Moderna, com o conhecido ‘Renascimento Italiano’, segundo Hilário Franco Júnior (2004, p. 16):


A baixa Idade Média (século XIV-meados do século XVI) com suas crises e seus rearranjos representou exatamente o parto daqueles novos tempos, a Modernidade. A crise do século XIV, orgânica, global, foi uma decorrência da vitalidade e da contínua expansão (demográfica, econômica, territorial) dos séculos XI – XIII o que levara o sistema aos limites possíveis de seu funcionamento. Logo, a recuperação a partir de meados do século XV deu-se em novos moldes, estabeleceu novas estruturas, porém assentadas sobre elementos medievais: o Renascimento (baseado no Renascimento do século XII), os Descobrimentos (continuadores das viagens dos normandos e dos italianos), o Protestantismo (sucessor vitorioso das heresias), o absolutismo (consumação da centralização monárquica).


Percebemos ao longo da discursão que o alvorecer dos ‘novos tempos’ traz suas continuidades e suas ‘descontinuidades’, vemos que todas as instituições que fizeram parte do período renascentista já estavam presentes no medievo, se há ruptura e oposição, existe também, em muitos casos duplo compromisso e continuidades. As Cruzadas, que ocorreram principalmente no século XII, trouxe a falência da estrutura de riqueza medieval, a terra. Com o surgimento do comércio, surgiu a classe burguesa. Essa classe era independente da Igreja e da nobreza. Com o capital que acumularam, estimularam uma estética que confrontava a estética católica, promotora da Inquisição, valor contrário a liberdade que essa classe tanto almejava. Era uma forma de ganhar uma distinção social legitima e que seus descendentes pudessem desfrutar.
Anteriormente citamos o fato de que quando o feudalismo imperava na Europa, algumas áreas continuaram a exercer um movimentado comércio, no caso da Itália, a cidade de Veneza era destaque pelo comércio que se exercia junto ao Oriente, esses fatores explicam ter sido a Itália o berço do Renascimento. Em primeiro lugar, as cidades italianas conheceram esse extraordinário desenvolvimento comercial a partir do século XII, transformando-se nos principais centros da economia europeia. Foi justamente ali que se iniciou o pré-capitalismo e, com ele, a intensificação da vida urbana, que modificaria as bases da sociedade. A vida nas cidades estreitou os contatos entre as pessoas, favorecendo o intercâmbio de ideias, a difusão de conhecimentos e uma nova maneira de ver o mundo.
O Renascimento do Século XV pode ser considerado como a manifestação cultural dessa nova composição social, na qual o enriquecimento tanto de governantes como de particulares possibilitou a prática do mecenato. Sob a proteção direta de ricos patrocinadores (os mecenas), a vida cultural tendeu a expressar os valores correspondentes aos interesses da classe que emergira com o novo sistema, ou seja, a burguesia. Em suma, o Renascimento do século XV é a expressão de uma nova mentalidade, gerada pelo pré-capitalismo. Como todo discurso formado tem uma ideologia por traz dos sujeitos dominantes, um jogo de interesses relacionados, o medievo sofreu esse preconceito, quando visto a luz dos ideais do homem renascentista, segundo Hilário Franco Júnior (2004, p. 11):


No caso do que chamamos de Idade Média, foi o século XVI que elaborou tal conceito. Ou melhor, tal preconceito, pois o termo expressava um desprezo indisfarçado em relação aos séculos localizados entre a Antiguidade Clássica e o próprio século XVI. Este se via como o renascimento da civilização greco-latina, e portanto tudo que estivera entre aqueles picos de criatividade artístico-literária (de seu próprio ponto de vista, é claro) não passara de um hiato, de um intervalo.


Fica claro que o discurso adotado pelo homem renascentista era o de repúdio a qualquer prática que retardasse o avanço do conhecimento, foi justamente esse discurso que a burguesia procurou legitimar, frente a uma sociedade em que as mudanças eram evitadas a todo custo, em que a hierarquia ainda obedecia ao critério do nascimento, a burguesia precisava encontrar outra maneira de alcançar o prestígio que o sangue plebeu lhe negava. Assim, o patrocínio de atividades culturais significaria uma elevação do status social. Segundo José Américo Motta Pessanha (1985, p.22):



O homem que ascende social e economicamente não pode mais aceitar como naturais – e, portanto, definitivos – os “lugares” das coisas e sobretudo das pessoas. Não pode admitir que os lugares estejam desde sempre – e, portanto, para sempre – definidos; nem que as hierarquias sejam rígidas e perenes; nem que tudo esteja previamente – porque essencialmente – para sempre estabelecido.



Nesse contexto, o ideal seria que a mentalidade aos poucos voltasse a ser antropocêntrica, tendo como exemplo principal os gregos, para que os valores medievais fossem, pouco a pouco, sufocados. Para isso a burguesia, inicialmente italiana, passa a financiar os artistas renascentistas, como Michelângelo, Leonardo Da Vinci, Rafael Sanzio, dentre outros. O interesse da burguesia era derrubar antigos valores típicos da nobreza da Idade Média e instaurar a nova mentalidade que valorizava a razão em detrimento à fé, valores esses que eram favoráveis à burguesia. Nesse contexto, de desenvolvimento econômico, as concepções acerca de como o indivíduo deveria agir em sociedade também se transformava, o acúmulo de capital financeiro fizeram com que a sua concepção acerca dele, e dos que os rodeavam mudassem. Uma nova forma de viver em sociedade estava surgindo e o corpo passa a ser elemento dessa ideologia, e as maneiras de o indivíduo se comportar em público ganharam destaque e uma sequência de regras iam surgindo, o indivíduo agora não era como era, e sim como parecia, ou melhor, como conseguia aparecer, segundo Philippe Arìes (2009, p. 11):


Pois, sobretudo a partir dos séculos XV e XVI, havia mais espaço de manobra numa comunidade que o enriquecimento e a diversidade das ocupações tornavam cada vez mais desigual. Os meios de agir consistiam em ganhar a aprovação ou a inveja ou pelo menos a tolerância da opinião graças ao parecer, quer dizer, à honra.


Na Europa, devido às transformações econômicas e sociais, o comportamento passou nesse momento, portanto, a ser regulado a partir do grupo social em que o indivíduo estava inserido, sendo codificados todos os movimentos corporais do mesmo, desde sua postura até seu modo de falar. As regras começaram a ser divulgadas, e o comportamento passou a ser definido como regra geral para identificar o grupo social ao qual o indivíduo pertencia, regras que iam desde o modo de se comportar das crianças, até os mais velhos. O corpo passa a ser visto como principal meio civilizador e tinha que ser domesticado e moldado, é nele que essa ideologia ia ser aplicada, segundo Jacques Revel (1991, p.169):


Com efeito, o século XVI é o de um intenso esforço de codificação e controle dos comportamentos. Submete-os às normas da civilidade, isto é, às exigências do comércio social. Existe uma linguagem dos corpos, sim, porém destina-se aos outros, que devem poder captá-la.


Dessa forma, todo e qualquer comportamento que estivesse fora dos padrões estabelecidos eram considerados anormais e, portanto revisto e corrigidos, a naturalidade corporal era cada vez mais reprimida, e quanto mais ele se afastasse de sua naturalidade, mais civilizado ele seria. Nesse momento, porém questiona-se até que ponto essa nova forma de pensar romperia as fronteiras da “elite pensante” e se estenderia ao resto da população. A mentalidade renascentista ainda era muito limitada à classe dominante, letrada, o resto da população continuava ignorante e consequentemente alheia a todo esse processo, segundo Philippe Ariès (2009, p. 11) “[...] estabelecer como princípio que, de meados da Idade Média ao final do século XVII, não houve mudança real das mentalidades profundas [...]”.
No florescer da modernidade o homem estava muito mais ligado à religiosidade do que qualquer outro momento, ela estava impregnada no seu dia a dia, os embates religiosos dilaceravam a Europa, as mudanças na mentalidade das sociedades europeias repercutiram também no campo religioso. A Igreja, tão onipotente na Europa medieval, foi duramente criticada, criticas essas que eram apoiadas principalmente pela burguesia, como citado anteriormente. As graves críticas a Igreja e as transformações econômicas e sociais, já não permitiam apenas consertar internamente a casa. As insatisfações acumularam-se de tal maneira que desencadearam um movimento de ruptura na unidade cristã: a Reforma Protestante.
Assim, a Reforma foi motivada por um complexo de causas que ultrapassaram os limites da mera contestação religiosa, outros fatores estavam relacionados. Diante dos movimentos protestantes, a reação inicial e imediata da Igreja católica foi punir os rebeldes, na esperança de que as ideias reformistas não se propagassem e o mundo cristão recuperasse a unidade perdida. Essa tática, entretanto, não obteve bons resultados. O movimento protestante avançou pela Europa, conquistando crescente número de seguidores.
Diante disso, ganhou força um amplo movimento de moralização do clero e de reorganização das estruturas administrativas da Igreja Católica, que ficou conhecido como Reforma Católica ou Contrarreforma. Todas as táticas desse movimento foram decididas no Concilio de Trento, que discorreu sobre os dogmas, a preparação intelectual do clero, a criação da Ordem dos Jesuítas, mostrando assim a preocupação da Igreja em expandir seu domínio através do Novo Mundo, tema que abordaremos mais afundo nos próximos capítulos.
Dessa maneira, Portugal se mostrava como país fortemente católico, e o mesmo funcionava em conjunto com a Igreja Católica, eram muito ligados, fato que nos explica a proporção da colonização das terras brasílicas e de como essa dualidade estava inserida no cotidiano das pessoas, sendo manifesta também no Novo Mundo, segundo Ronaldo Vainfas (2001, p. 293):


Em Portugal, as decisões de Trento foram acolhidas quase imediatamente ao final do concílio, mas a aplicação delas conheceu nuances que se explicam pelas peculiares relações entre a Igreja e a Coroa estabelecidas desde o inicio do século XVI. Diante da expansão marítima e seu consequente afluxo de riquezas, somados ao abalo provocado pelas reformas protestantes, a Coroa lusa recorreu à Igreja como instrumento por excelência de conservação dos poderes e costumes estabelecidos.


O mundo do europeu, mais precisamente do português, no século XVI, era dominado por uma dualidade definidora e decisiva para todo o cotidiano e contexto em que a Europa estava inserida no momento. E era dessa Europa que se colocava como centro de tudo, onde todas as regras e moldes civilizatórios se difundiam, ela que se colocava como centro da humanidade, vivendo na dinâmica nesse momento de fortes mudanças para os que estavam sobe esse contexto de colonização da América. Foi nessa dualidade, e porque não dizer ambiguidade, que falamos a pouco está inserida a Europa que chega a América. Esse período é caracterizado por um embate das Luzes e das Trevas, com as marcas do Renascimento que evocava um desenvolvimento econômico, do lucrativo comércio por meio do oceano. Em outra frente às consequências da Inquisição presentes no mundo do colonizador, segundo Wehling e Wehling (1999, p.20):
Forjou-se nos últimos anos da Idade Média, um mundo novo, ao qual o território que viria a ser o Brasil foi gradativamente incorporado a partir de 1500. Este mundo novo, do qual o “Novo Mundo” era apenas uma das expressões, resultou de uma gestação multissecular, na qual tem inicio a história do Brasil.


Consequentemente entender esse longo processo vivido pela sociedade europeia significa aqui não nos remetermos a essas mudanças como sendo embasadas apenas em resultado de situações políticas, econômicas e comerciais, mas, sobretudo estender todas essas rupturas e transformações na sociedade como um todo. Faz-se necessário entendermos todos esses contatos que estabelecidos, considerando sempre as contribuições, positivas ou negativas, que a Europa vem dar ao povo que encontraram nas terras brasílicas, até então desconhecidos para tais.
Os ares de toda essa dinâmica social que a população da Europa respirava, dava vida a corpos sociais desejosos de mudança. O Novo Mundo se mostrou como fruto desse desejo, uma novidade esboçada pelas ideias de transição para uma futura modernidade. São as novas terras uma verdadeira amostra da realidade que o europeu estava inserido naquele momento. Para Wehling e Wehling (1999, p. 51):


Montou-se, sob condição colonial, uma réplica da administração portuguesa. Travaram-se lutas de fundo religioso e politico com vistas á dominação territorial. Surgiram problemas culturais que desafiaram os padrões de compreensão da época.


Diante desse contexto, Portugal se encontrava com uma monarquia centralizadora, que vivia a concretização e o ponto mais alto do poder real. A nação portuguesa, do agitado século XVI como qualquer outra, tinha suas particularidades e estava por seus próprios meios se adequando a esses fatores sociais que vivia a Europa, fatores esses que já foram citados anteriormente. A historiografia foi sempre muito clara quando nos mostra a predisposição do homem português no conhecimento do mar. Já tendo obtido contato com outras sociedades, culturas e povos, o português era impulsionado a cada vez mais aperfeiçoar e não perder de vista a garantia de vida de sua nação, toda essa tradição nos explica os aspectos adquiridos e desenvolvidos pelos nossos colonizadores portugueses, tema que aprofundaremos no próximo capítulo.

Autor : Walmar Machado, Licenciado pelas FIP.



















sexta-feira, 28 de junho de 2013

A UNE: UMA IMAGEM ESTUDANTIL.



Conforme autores que abordam o golpe militar é perceptível a participação de estudantes e intelectuais atuando junto com os movimentos de esquerda contra a ditadura militar a partir de 1964. Contudo, para entender como esses estudantes deixaram de se dedicar apenas as lutas estudantis e ingressam na luta armada é preciso compreender o que os motivaram. A princípio os movimentos estudantis protestavam contra a política educacional no governo de Castelo Branco e a falta de liberdade democrática. Existia ainda a influência americana que visava tornar rentável a universidade pública, que além de preferir investir em mão de obra qualificada queriam acabar com a administração estudantil. Segundo Carmo (2003, p. 83): Durante os anos de 1964 e 1965, a intervenção e o fechamento de faculdade por parte dos militares geraram um clima de indignação. Em 1966, uma manifestação em Belo Horizonte foi reprimida pela polícia. Como resposta ao ato violento ocorreram passeatas de solidariedade no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Vitória. Em quase todas elas, e por muito tempo, a UNE atuou na ilegalidade. Muitas vezes ocorriam violentos confrontos de rua.

O movimento estudantil desde o princípio lutou a favor das melhorias educacionais, a UNE era sua principal entidade, criada no 1º Conselho Nacional de

Estudantes13 em 11 de agosto de 1937 durante o governo de Getúlio Vargas, sendo esta legalizada oficialmente apenas em 1942 pelo decreto-lei nº 4.105, pelo então presidente Getúlio Vargas. Sendo reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro, a UNE passou a receber verbas federais para sua administração e manutenção. Apesar da UNE no início não querer atuar como entidade política e ter como fins apenas uma representação legal diante do governo para melhorias educacionais, esta em decorrência do seu destaque passou a ser alvo dos militares desde os primeiros momentos do dia 31 de março de 1964, a exemplo do incêndio no prédio da UNE que ficava situado na Praia do Flamengo no Rio de Janeiro, como mostram Bortot e Guimaraens (2008, p.15) Noite de 31 de março de 1964. As informações sobre o que realmente acontecia no Brasil eram difusas e incertas. No auditório da União Nacional dos Estudantes, integrantes do Centro Popular de Cultura comemoravam a notícia de que uma tentativa de golpe militar fora rechaçada, e o País voltava à normalidade, como se algo pudesse ser considerado normal naqueles dias nervosos de embates políticos diários, em que o governo radicalizava em direção às reformas de base e a direita conspirava abertamente. As rajadas de metralhadora disparadas por terroristas de direita contra o prédio da Praia do Flamengo (RJ), naquela noite, mostraram que a suposta resistência não passava de ilusório boato. No dia seguinte, a sede amanheceu em chamas, os autores desse atentado nunca foram identificados, especula-se que faziam parte do MAC (Movimento Anti-Comunista), mas o que se sabe de fato é que esse foi apenas o primeiro ato contra o movimento estudantil.

Num primeiro momento a atuação estudantil estava voltada apenas para o que acontecia dentro das faculdades e universidades. O sistema educacional não estava mais suprindo a procura de vagas para entrar na faculdade, visto que, naquela época já em meados do ano de 1967 o vestibular não era classificatório e sim seriam aprovados apenas aqueles que atingissem nota mínima para ocupar uma vaga, contudo o número de instituições estava inferior a demanda. Em seguida foi resolvido o problema como cita Carmo (2003, p. 83-84):

13 De imediato, aprovou-se “uma proposta do representante do Diretório Central dos Estudantes de Minas Gerais, proibindo, expressamente, a discussão de temas políticos”. Sobre o assunto ver: SALDANHA, Alberto. A UNE e o mito do poder jovem. Maceió: Edufal, 2005, p.19.

[...] Posteriormente, o Ministério da Educação “resolveu” o problema implantando o sistema classificatório e permitindo a abertura acelerada de faculdades particulares. Mas os protestos na época extrapolaram para o campo da política, não mais se limitando à exigência de mais vagas. E, mais, os estudantes se tornaram representantes dos setores descontentes e muitos se consideravam a “vanguarda” da luta popular.
No segundo momento, esses mesmos estudantes que lutavam a favor de reformas educacionais já estavam engajados em lutas políticas contra o regime militar.

A ditadura militar na década de 1960 viria para marcar o movimento estudantil, uma vez que o palco de atuação dos estudantes não seriam apenas nos congressos e sim nas próprias ruas em ações que caracterizava-se pela resistência ao autoritarismo do regime militar.

A partir de 1964, o que houve com a UNE foi um processo crescente de radicalização, onde em seu discurso passou-se a enfatizar não apenas o que lhe interessava sobre as reformas educacionais, mas grandes questões de cunho nacional.
Segundo Saldanha (2005, p.16):

Ao investigar “os tempos de antes” da UNE poder-se-á reavaliar a dimensão que tem a “auto-imagem” do movimento estudantil junto à sociedade como um movimento nacionalista e progressista, capaz de perdurar até hoje, mesmo que, a partir do final da década de 1960 (o início do período de luta armada e dos grupos guerrilheiros), esse próprio movimento tenha forjado uma nova “auto-imagem”. Não mais nacionalista e progressista, porém revolucionária e socialista.

Ao observar a história do movimento estudantil e, mais precisamente, o da UNE durante as décadas de 1960 e 1970, ela irá se confundir bastante com a história da luta contra a repressão e da luta armada contra a ditadura.

O movimento estudantil se alastrou ao longo das décadas de 1960 e 1970 em protestos, ganhando cada vez mais adeptos e em seus congressos o número de participantes só aumentava.
A geração de 1960 e 1970, apesar de possuir um ensino defasado e elitizado, ficou conhecida como uma geração, segundo Saldanha (2005, p. 52) “cuja percepção estética e aprendizado intelectual foram construídos pela leitura.

Estabeleceram com a linguagem escrita uma cumplicidade que a televisão não permitiria depois.” A grande cartada que os estudantes dessa época tiveram foi à aquisição cultural por meio de leituras que os ajudaram em meio à repressão, desenvolverem táticas de quebrar a censura e expor o radicalismo da ditadura militar para a população, táticas essas, muitas vezes reprimidas. Esse mesmo movimento estudantil estava dividido em dois níveis, por um lado se discutia as reivindicações dos diversos setores na sociedade, do outro o discurso da luta armada. O ano mais intenso para o movimento estudantil foi o 1968, este ano ficou marcado não só pela atuação de movimentos que eclodiram no Brasil mais em diversas partes do mundo, quase que ao mesmo tempo, como mostra Carmo (2003, p. 76): O movimento estudantil explodia e tomava conta das ruas em quase todos os cantos do planeta. Difuso, o processo deixou desnorteados os analistas políticos. Cada uma das “revoluções estudantis” se afastava de modelos, previsões e explicações simplistas. 

As manifestações eclodiram em Santiago, Belo Horizonte, Valência, Madri, Polônia, Iugoslávia, para citar algumas. Nesse período, a Organização das Nações Unidas (ONU) chegou a contabilizar manifestações estudantis em cerca de cinqüenta países. O que estava surgindo era à nova esquerda que rejeitava o conservadorismo burguês e se alastrava como rebeliões em prol da radicalização de ideologias e execução dessas idéias revolucionárias. Esses mesmos estudantes que lutaram em prol da redemocratização do país são os mesmos filhos das famílias brasileiras que saíram as ruas para apoiar o novo regime militar de 1964.
Os principais acontecimentos do movimento estudantil em 1968 se deu de forma rápida, não muito diferente do tão conhecido Maio de 6814 francês.

14 Houve diversos acontecimentos em maio de 1968 na França, o movimento eclodiu primeiramente em prol de reformas contra o sistema arcaico de ensino. Sobre o assunto ver: ROTMAN, Patrick. Maio de 68: Explicando aqueles que não viveram. Lisboa: Guimarães Editores, SA, 2009.

A cada ano que se passava a ditadura reprimia ainda mais, o governo fechava o cerco para conter os movimentos estudantis, implantando decretos e leis que de fato traziam cada vez mais restrições no meio estudantil.

Em 9 de novembro de 1964 é implantada a Lei n° 4.464 conhecida como Lei Suplicy de Lacerda15 que põe a UNE definitivamente na ilegalidade. Porém, os estudantes desafiavam essa Lei, como cita Bortot e Guimaraens (2008 p.19): Mas Mesmo na clandestinidade, os estudantes resistiam. A UNE continuava viva, elegia suas direções em encontros secretos e discutia formas de resistência à ditadura. Os estudantes desafiavam a Lei Suplicy de Lacerda e constituíam centros acadêmicos livres que, muitas vezes, funcionavam fora das universidades. Os encontros continuavam existindo, agora de forma secreta, possivelmente nos porões dentro das Universidades e até mesmo fora delas, mais sempre para discutir formas de resistência contra a ditadura. Manifestações como pichações, panfletagens, organização de passeatas e comícios relâmpagos eram meios que os estudantes encontravam para quebrar a barreira da repressão e divulgar e denunciar o que de fato acontecia no país como mostra Coelho (2011, p.36): A organização dessas passeatas muitas vezes entrava “noite adentro”. Os estudantes compravam spray para colocar dizeres nas faixas. No dia das passeatas colocavam as faixas grandes pelo lado de fora dos ônibus. Representavam uma forma de sair de dentro da universidade, de fazer a denúncia, de mostrar os problemas enfrentados pelos estudantes, e claro, de demonstrar o repúdio ao regime militar, exigir democracia, liberdade. [...]. Essas manifestações eram as principais formas de reivindicação dos estudantes que por sua vez geravam intensos confrontos com a polícia militar.

15 A lei ganhou esse nome em homenagem ao então ministro da Educação. A lei determinava que o funcionamento da UNE estava proibido, os centros acadêmicos seriam substituídos por diretórios e esses diretórios seriam subordinados a direção das universidades. Sobre o assunto ver: BORTOT, Ivanir José; GUIMARAENS, Rafael. Abaixo a Repressão!: Movimento Estudantil e as Liberdades Democráticas. Porto Alegre: Libretos, 2008, p. 16.

 OS ESTUDANTES ASSUMEM A RESISTÊNCIA

O ano de 1968 seria um dos mais conturbados e turbulentos para o governo, os protestos intensificavam-se, o governo não conseguia conter os movimentos e o estopim de tudo que estava acontecendo foi à morte do estudante Edson Luís, que foi atingido por arma de fogo usada por policiais, como afirma Gorender (2003, p.160):

Do ponto de vista da agitação estudantil, o ano de 1968 começou no dia 28 de março, quando um choque da Polícia Militar invadiu o restaurante do calabouço, que servia refeições a estudantes no centro da antiga capital da República. Alegou-se que ali se preparava uma passeata para atacar a Embaixada dos Estados Unidos, na rua México. Os policiais usaram armas de fogo em recinto fechado contra jovens desarmados. Feriram vários deles e mataram o secundarista Edson Luís de Lima Souto. O cadáver foi levado ao saguão da antiga Câmara Municipal, na Cinelândia, e a notícia do assassinato do quase-menino de 18 anos se difundiu por todo o Brasil. Sessenta mil pessoas acompanharam o caixão mortuário na tarde do dia seguinte. Os protestos prosseguiram e a repressão provocou novas mortes e milhares de prisões nas principais cidades. Os universitários, cujo número total não ia além de 140 mil, recebiam o apoio impetuoso de dois milhões de secundaristas.

A morte de Edson Luís foi apenas o primeiro passo de uma série de atos por parte do movimento estudantil, como também do próprio governo militar.

O confronto que terminou com a morte de um estudante, culminaria em um processo mais radical contra a ditadura e repressão por parte do governo.
A própria elite vai ficar a favor dos movimentos estudantis. Uma sequência de acontecimentos irá favorecer com que cada vez mais essa classe média apóie as manifestações. No dia 1º de abril mais uma vez os estudantes saem às ruas, sendo que desta vez como quem iam à guerra.
Agora mais do que nunca o movimento estudantil tinha razões para combater a ditadura. Nesses confrontos mais estudantes foram mortos e alguns feridos, para muitos estudantes os confrontos estavam se tornando rotina.

É perceptível compreender que aquela elite, que antes saíram às ruas defendendo um governo militarista, agora lutava contra esse mesmo governo. O resultado de tudo culminou na famosa „Passeata dos Cem Mil‟ no dia 26 de junho do mesmo ano, esta que reuniu estudantes, artistas, intelectuais e representantes das elites como mostra Carmo (2003, p.86):

O auge das manifestações se dá com a histórica passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, reunindo estudantes, intelectuais, artistas, padres e mães. Para aquela época, cem mil manifestantes era um número assustador. Mesmo que a quantidade real de manifestantes na passeata fosse menor, o fato é que, dessa vez, o regime de 1964 estava tão acuado e exposto que a passeata dos Cem Mil chegou a assustar os militares. Os manifestantes haviam conquistado a simpatia da opinião pública. Após a passeata foi marcada audiência com o presidente da República.

As passeatas eram verdadeiros espetáculos para os que viam e ouviam, palavras de ordens eram cantadas, os grupos comungavam da mesma ideologia que só o povo derrubava a ditadura, sejam os que iam armados ou organizados, o fato é que para eles a união era o que fazia a força.

O ano de 1968 ficava cada vez mais conflitante, parecia que não ia acabar e os estudantes mais do que nunca haviam conseguido seu espaço nas lutas e o apoio de grupos políticos como o PCB (Partido Comunista Brasileiro), AP (Ação Popular), a JUC (Juventude Universitária Católica), entre outras tendências políticas.
Segundo Saldanha (2005, p. 53):

A Ação Popular defendia que o papel da UNE era denunciar a ditadura militar e imperialismo, marcando a luta universitária com grandes manifestações públicas, visando assim se defrontar com as forças representativas do Estado.

O que a AP estava propondo era um primeiro passo de organização da luta universitária e não efetivamente engrenar-se na luta armada, mas através de um processo que auxiliasse as massas a despertar uma consciência crítica na sociedade, afim de que a mesma tomasse conhecimento sobre o que de fato estava acontecendo no país.

A UNE estava cada vez mais ativa mesmo que na clandestinidade, seus congressos perpetuavam até o seu XXX Congresso em Ibiúna fracassar. Muitos acreditam que a realização do congresso foi um verdadeiro suicídio para a entidade, como afirma Gaspari (2004, p.325):

Ibiúna terminou como era de se supor. A polícia sabia local, dia e hora da reunião. Cercou-a com tropas da Polícia Militar na madrugada fria de 12 de outubro. Prenderam toda a UNE, sua liderança passada, presente e futura. No maior arrastão da história brasileira, capturaram-se 920 pessoas, levadas para São Paulo em cinco caminhões do Exército e dez ônibus.50 O movimento estudantil se acabara. Dele restou um grande inquérito policial, que se transformou em mola para jogar na clandestinidade dezenas de quadros das organizações esquerdistas. Nos seis anos seguintes, militando em agrupamentos armados ou na guerrilha rural, morreriam 156 jovens com menos de trinta anos. Deles, pelo menos dezenove estiveram em Ibiúna.
Não bastava o novo Ato Institucional o AI-5, os estudantes se deparavam com o fracasso do XXX Congresso de Ibiúna sendo este resultado da imparcialidade do movimento estudantil em manter sigilo das suas ações.

O movimento estudantil desafiava a chamada Doutrina de Segurança Nacional subestimando os militares, existia ainda o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) era uma das organizações de que comandava a direita universitária que travava conflitos contra a esquerda, isso fez com que as lutas em massa entrassem em declínio e assim a UNE cada vez mais se encurralasse em um beco sem saída.


 A LUTA ARMADA: OS EMBATES IDEOLÓGICOS ENTRE MILITARES E ESTUDANTES.

A censura estava escancarada, a violência e as torturas tomavam de conta e mais uma vez culminava em centenas de mortes. Os estudantes ainda tentavam conter a Doutrina de Segurança Nacional, porém o movimento estudantil estava enfraquecido.
O que houve após o recrudescimento da ditadura, foi uma ruptura aos integrantes do movimento estudantil, o que autores que abordam o movimento estudantil consideram é a ideia de houve uma derrota do movimento estudantil desarticulando suas entidades.

No entanto, esses mesmos estudantes que foram “derrotados” pela repressão do regime optaram por outras formas de combate ao governo. Muitos foram para a luta armada aderindo aos grupos e organizações de guerrilha como afirma Carmo (2003, p. 32) “Com a decretação do AI-5, o regime brasileiro intensificou a repressão e os estudantes foram varridos das ruas. Fechadas todas as vias de participação política, muitos aderiram às organizações de guerrilha e viveram na clandestinidade”.

A ideia de ir a guerrilha ficou sendo o principal foco dos integrantes do movimento estudantil após endurecimento do regime militar e a prisão de líderes como José Dirceu, Luís Travassos e Vladimir Palmeira, estes que foram exilados mais tarde por terem seus nomes na lista de prisioneiros a serem libertados em troca do embaixador norte-americano sequestrado pelo MR-8.
Segundo Carmo (2003, p.94):

Centenas de jovens estudantes ingressaram na guerrilha urbana a partir de 1968, influenciados pelas ações de Marighella e por toda a efervescência revolucionária ocorrida em Cuba além da incitação de Guevara para criar “Um dois, três, mil Vietnãs”. Nos vários grupos que se formaram, houve muitos desentendimentos internos, divergências táticas e ideológicas e atitudes intempestivas.

É importante ressaltar que os estudantes foram elementos fundamentais para vários grupos de esquerda, o próprio MR-8 contou a participação do estudante Fernando Gabeira no sequestro do embaixador norte-americano.

A ALN e a VPR também contaram com a participação estudantil, contudo a Guerrilha do Araguaia teve em sua maioria de integrantes os procedentes do movimento estudantil.
Carmo (2003, p. 105) afirma que “Em meados dos anos 70 os militantes da guerrilha já estavam mortos, presos ou exilados, e mergulhados durante alguns anos no silêncio dos cemitérios”. A década de 1970 para os estudantes que participavam da guerrilha como também para as organizações de esquerda em que os mesmo faziam parte, foi uma época de perseguição e violência, muitos inclusive eram tachados como terroristas.

As panfletagens, pichações ou qualquer outro tipo de manifestação contra o regime passaram a ser considerados como de risco, uma vez que com a intensificação da repressão, o enfraquecimento dos movimentos, e falência de algumas organizações levara ao movimento estudantil silenciar, embora, quando assumiu o cargo de presidente em 1974 Ernesto Geisel deu início a abertura política e o fim da repressão
Poucos eram os estudantes que após a repressão se aventuravam em confrontar o regime, muitos continuavam com essas ações, ainda que de forma clandestina, dentro das universidades através de manifestações culturais, visto que não havia como sair às ruas após a intensificação da repressão.
Segundo Carmo (2003, p. 134):

Diferentemente da geração dos anos 60, pode-se dizer que a dos anos 70 saiu-se vitoriosa. Uma a uma, as bandeiras de luta foram sendo conquistadas. Enquanto a geração de 1968 caiu no emudecimento, mergulhando nas trevas do AI-5 e, a seguir, sendo brutilizada pela repressão, a do final dos anos 70 viu brotar a anistia, o novo sindicalismo, o movimento das mulheres e o do custo de vida.

O movimento estudantil foi bastante perseguido no final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970, contudo, ao diminuírem sua participação na luta armada, uma vez que cassados, presos e torturados numa guerra onde quem estava vencendo era à repressão dos militares, os estudantes foram aos poucos tomando rumo, voltando a ótica para os diretórios acadêmicos.
Segundo Bortot e Guimaraens (2008, p.237):

O ciclo das grandes manifestações estudantis da década de 70 chegava ao fim. As principais lideranças começavam a deixar a universidade e buscar outros campos no ativismo político no sindicalismo e nos partidos recém-criados. Como precursor de uma ampla mobilização pela reconquista da democracia do País, o movimento estudantil saia de cena, abrindo espaços para novos protagonistas: o sindicalismo, os movimentos comunitários, os trabalhadores sem-terra, as lutas ambientais e os novos partidos. A principal tarefa fora cumprida. A reconstrução da UNE representava uma vitória concreta contra a ditadura.

O movimento estudantil voltava a ativa por volta do fim dos anos de 1970 quando o desgaste do regime militar favorecia a sua ascensão, novamente os estudantes saiam as ruas em passeatas, contudo a censura aos meios de comunicação se perpetuava os impediam de prestar qualquer notícia sobre os assunto.
O ano de 1977 foi marcante para o movimento estudantil garantir a sua ascensão, já que uma vez desgastada pelos casos de corrupção e pelo fracasso da política econômica o regime militar não conseguia mais abafar tais acontecimento com a censura, sendo assim o movimento estudantil voltaria a todo vapor, como mostra Carmo (2003, p.133):

“Pelas liberdades democráticas” foi o grito mais ouvido naquele ano de 1977 entre os estudantes brasileiros. Não era pra menos: para aquela época a frase soava subversiva, ousada. Era cutucar a ditadura militar. Mas havia grupos mais radicais como o Liberdade e Luta (Libelu), que ia além ao gritar “Abaixo a ditadura”.
Impulsionados com o rumo que o movimento estudantil estava tomando, o ano de 1977 era propício ao movimento estudantil reagir e voltar a enfrentar a repressão.

A partir de então houve inúmeras passeatas, os manifestantes saíam às ruas para denúncias a prisão dos militantes presos e assim aos poucos acabam por denunciar os efeitos do regime militar.
O processo de redemocratização do país foi lento, contudo, as esquerdas junto com a participação do movimento estudantil, a UNE e as entidades ligas a ela, foram peças fundamentais para que finalmente em 1985 fosse feito a eleição para presidente, sendo que desta vez não mais determinada por quem detinha o poder durante o regime militar e sim pela participação do povo.

Autora :

Franciene Mendes, Licenciada pelas FIP

OS ATOS INSTITUCIONAIS E O SURGIMENTO DOS MOVIMENTOS DE ESQUERDA.



Este capítulo tem por objetivo abordar o papel dos principais movimentos de esquerdas como entidades que atuaram contra o governo de direita e contra a ditadura militar.
Os emblemáticos “anos de chumbo” começaram com a tomada do governo pelos militares. O golpe veio para ficar. Segundo Gaspari (2002, p.85) “[...] nenhuma força à esquerda do presidente tomou iniciativa militar relevante durante o dia 31” exceto a mobilização liderada por Brizola em Porto Alegre, que segundo Gorender (2003, p.134):
No dia 31 de março de 1964, o Governador Meneghetti fugiu para Passo Fundo e Brizola teve Porto Alegre sob seu controle. Dezenas de milhares de pessoas encheram as ruas da capital e várias unidades do Exército continuavam sob o comando de oficiais nacionalistas. Brizola incentivou a mobilização popular, porém não fez o que podia consolidar a frente antigolpista: a instalação de um governo provisório alternativo na capital do Estado. Quanto ao Grupo de Onze, já seriam 24 mil em todo o País, nada se soube das iniciativas deles.
Já no exílio em Montevidéu, Brizola adotara a ideia do tipo guerrilheiro os quais adeptos do nacionalismo pequeno burguês de Brizola irão formar o MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário).
Uma série de movimentos surgiu contra a ditadura, alguns já existiam, contudo seus protestos eram apenas a favor do bem comum que os mesmo defendiam, ou seja, eram movimentos isolados que ganharam grande repercussão política com o avanço da ditadura.
Segundo Habert (1992, p.33):
O processo de surgimento das novas organizações de esquerda foi contemporâneo ao conflito sino-soviético, às experiências das revoluções cubana e chinesa, à guerra do Vietnã, às guerrilhas latino-americanas, a Che Guevara, às idéias de "foco guerrilheiro" defendidas por Régis Debray, às críticas ao stalinismo.
Para conter o avanço dos protestos de esquerda que iam surgindo, e executar a ditadura sem que os artigos da Constituição de 1946 os barrassem, a Junta militar criou os Atos Institucionais.
Os Atos Institucionais serviram como mecanismos de legitimação e legalização das ações políticas dos militares, eram dispositivos que os militares precisavam para estabelecer suas próprias regras e poder cassar mandatos, prender, suspender direitos políticos e até mesmo aposentar qualquer pessoa que fosse tida como ameaça a segurança nacional, ou seja, os Atos Institucionais eram a principal argumentação dos militares para reprimir, censurar, prender e até mesmo torturar qualquer um quer fosse tido como ameaça para o governo.
À medida que iam renovando os atos, esses iam se intensificando, favorecendo ainda mais a opressão, principalmente quando se tratava da resistência da esquerda.
O 1º Ato Institucional foi decretado em 9 de abril de 1964, que além de dar ao governo militar o poder de alterar a Constituição, também permitia eleições indiretas para a presidência da República. Este ficou conhecido como o AI-1.
A partir deste outros 17 foram instaurados, contudo o que causou maior repercussão foi o AI-5, que segundo Carmo (2003, p. 89):
[...] O Ato Institucional nº 5, porém, teve maior repercussão devido ao seu rigor ditatorial e aos poderes absolutos que conferia ao presidente: o Congresso foi fechado, mandatos de políticos foram cassados, efetuaram-se prisões se acusação formal, intensificou-se a censura e o presidente Costa e silva mergulhou o país no período sombrio de autoritarismo.
O AI-5 entrou em vigor no dia 13 de dezembro de 1968, ele foi uma resposta das Forças Armadas sobre um discurso do deputado Márcio Moreira que pedia ao povo brasileiro que boicotasse o dia 7 de setembro, esse discurso foi uma ofensa aos militares.
Percebe-se que a ditadura estava munida com os Atos Institucionais, contra os partidos políticos de esquerdas, a imprensa e qualquer outro movimento que surgisse para derruba-lá.
O PCB (Partido Comunista Brasileiro) considerado como o principal partido político de esquerda, servia de referência em todas as organizações de esquerda sejam elas operárias, camponesas, estudantis e até mesmo nas campanhas antiimperialistas. Sua principal inspiração era marxista e contava como líder Luís Carlos Prestes, que possuía bastante prestígio biográfico.
Contudo, a prudência dos seus líderes em não tornar o PCB em um partido de esquerda radical o levou a divergências internas e membros de dentro do próprio partido o fez caíram em desavença, enquanto alguns estavam dispostos a ir para a luta armada, outros preferiam a resistência política. Chiavenato (2004, p.160) afirma que:
A prepotência do PCB pretendia encobrir a sua inércia revolucionária. Após o golpe de 64, essa passividade tornou-se muito evidente. As discussões internas que aconteciam havia algum tempo explodiram nos „rachas‟. Surgiram as dissidências. A mais importante foi a do Partido Comunista do Brasil (PC do B), com uma proposta clara de luta armada. Outros grupos escolheram permanecer dentro do PCB, aceitando a tática da „resistência política‟.
O PCB reunia no todo um grupo de teóricos e militantes. Porém, o grupo estava dividido e essas desavenças internas tiveram seu auge no 6º congresso do PC em 1967, que teve como consequência a criação grupos ditos revolucionários, os membros do PCB que não aceitavam a política pacífica do PCB em denunciar o golpe através da resistência política e romperam definitivamente com PCB a fim de criar grupos mais radicais, entre esses o PC do B (Partido Comunista do Brasil).
Skidmore (1982, p.336) vai afirmar que os “[...] jornalistas políticos do Brasil falavam das „esquerdas‟ e não da „esquerda‟. [...]” ou seja, não havia dentro da esquerda uma unanimidade política, as ideologias poderiam ser as mesmas quando se tratava de vencer a direita, contudo, os meios para vencer o governo burguês eram extremamente diferentes.
Segundo Chiavenato (2004, p.156):
Divididas ideologicamente e desunidas na prática política, as esquerdas brasileiras não conseguiram formar uma frente única contra a ditadura. Do Partido Comunista Brasileiro (PCB) saíram vários grupos que fundaram pequenos partidos, com escassos recursos e poucos militantes. Foram principalmente esses grupos que partiram para a guerrilha.
Os principais grupos formados a partir da ruptura dos membros do PCB foram: o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), a ALN (Ação Libertadora Nacional) e a AP (Ação Popular).
Muitos desses partidos que surgiram a partir da ruptura com o PCB engrenaram-se na luta armada, alguns tiveram que deixar o partido, pois não correspondia com as proposta do partido e queriam introduzir novas ideias de resistência, como afirma Chiavenato (2004, p.162):
Segundo Prestes, então secretário do PCB, o partido não rompeu com ninguém: eram pessoas com “posições esquerdistas” que pretendiam dirigir o PCB com novas idéias e tiveram de deixá-lo. Em 1067, essas dissidências levaram Prestes a pedir a expulsão de Carlos Marighella, membro do Partido Comunista, que fundaria e chefiaria a ALN, uma das correntes mais importantes na luta armada.
A ALN surgiu após Carlos Marighella ter se desligado do PCB, este seria o principal grupo da luta armada contra a ditadura militar.
Segundo Chiavenato (2004, p.162):
Marighela fez críticas contundentes ao PCB, denunciando o seu despreparo para interpretar teoricamente a sociedade brasileira e negando a crença de que uma “burguesia progressista” poderia se aliar às esquerdas na luta contra o imperialismo. Ele concluiu que “não há outro caminho para o nosso povo senão a luta de massas contra seu principal inimigo interno, isto é, a ditadura”. E passou a pensar na luta de guerrilhas, que, “típica dos campos”, pôde expandir-se. Porém, não aceitou a “teoria do foco”: “Ninguém espera que a guerrilha seja o sinal para o levante popular ou para a súbita proliferação de focos insurrecionais”. Assim, renegando o foquismo defendido por Che Guevara, Marighela aderiu claramente ao terrorismo de esquerda. [...]
Nos anos seguintes a 1960 Carlos Marighella foi o principal líder que mais explicitava o terrorismo de esquerda, diferente de Che Guevara, que era contra o terrorismo ele sempre alertava a todos para os prejuízos dessas ações.
Carlos Marighella ainda viajou para Cuba, lá ele pode fazer acordos com o líder cubano Fidel Castro. Ainda em 1967 a primeira turma de adeptos ao
movimento Marighella viajou para Cuba para fazer um treinamento de luta guerrilheira, em 1968 e 1969 foram mais duas turmas. Boa parte dos militantes a ALN eram estudantes, a maioria vinha da Dissidência Estudantil de São Paulo, entre eles estavam vários profissionais de nível universitário e alguns operários de vários segmentos.
Para arrecadar fundos, em 1967 ALN passou a assaltar bancos, para eles essas ações10 eram necessárias para garantir a estruturação do movimento. Em decorrência disso, foi criado o GTA (Grupo Tático Armado) chefiado por Marco Antônio Braz de Carvalho ou simplesmente o Marquito, este tinha habilidade em comando, perícia e manejo de armas e explosivos. Segundo Gorender (2003, p.108): Os órgãos policiais ficaram desnorteados. A técnica dos assaltos é sofisticada e o número deles se eleva de maneira assustadora. Até 1967, os assaltos a agências bancárias raramente passavam de dois por ano em São Paulo e os marginais espoliavam os caixas e os clientes, ao passo que agora o objetivo é o cofre da agência. No decurso de 1968, os assaltos atingiram, na capital paulista, onze agências bancárias, cinco carros pagadores e um trem pagador, num total de dezessete. Até julho de 1969, eram atacadas mais de 31 agências bancárias e um carro pagador (O Estado de S. Paulo, 15 maio 1969; Veja, 13 ago. 1969). O que se devia não só à ALN, mas também a outras organizações clandestinas. Percebe-se a partir do momento que a ALN passou a assaltar bancos numa tentativa de arrecadar fundos para se manter, outras organizações a tiveram como exemplo e logo passaram a fazer o mesmo. Além dos assaltos a bancos, alguns grupos passaram a sequestrar personalidades de nível internacional, com a finalidade de libertação de pessoas presas pela ditadura.
Um desses grupos foi o MR-8 que em parceira como ALN sequestrou em setembro de 1969 o embaixador americano Charles Elbrick. Este grupo pedia a libertação de 15 presos, além disto o grupo pretendia ainda romper a censura nos meios de comunicação, este era inclusive o segundo tópico do manifesto em que eles reivindicavam segundo afirma Gabeira (1996, p 118):
10 O primeiríssimo princípio é o da ação. É a ação que faz a organização e a desenvolve. Ação significa violência revolucionária, luta armada, guerrilha, A ação cria tudo a partir do nada, do zero [...] Sobre o assunto ver: GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas, São Paulo, Ática, 2003. p. 105.


Pedíamos duas coisas ao governo, para soltar com vida aquela pessoa enrolada num saco ao fundo da kombi: “As duas exigências”, dizia o texto, são: a) a libertação de quinze prisioneiros políticos que sofrem torturas nas celas de prisões em todo o país, que são golpeados, maltratados e suportam as humilhações que lhes impõem os militares. Não pedimos o impossível, não pedimos a volta à vida de inúmeros combatentes assassinados na prisão. Os que não forem libertados agora, é claro, serão reivindicados algum dia. b) a publicação e leitura desta mensagem completa nos principais jornais e estações de rádio e televisão do país.
É importante ressaltar que o MR-8 não surgiu apenas como um grupo que tinha por objetivo sequestrar o embaixador americano, mas um grupo de caráter socialista que atuava desde 1964 quando foi instaurada a Ditadura Militar. A princípio o grupo se chamava DI-GB (Dissidência Comunista da Guanabara) e foi rebatizado após a captura de Che Guevara na Bolívia em 8 de outubro de 1967.
A AP é outro grupo formado contra a ditadura do governo, este nasceu em 1962 e pertencia a JUC (Juventude Católica Universitária). De início esse movimento surgiu para defender o socialismo a partir dos movimentos de massa e com isso ganharam destaque.
O surgimento aconteceu a partir das mudanças na própria Igreja Católica que na época tinha como pontífice João XXIII e em decorrência das lutas de classe no Brasil.
Ilustração número 03 – Embaixador Charles Burke Ellbrick dos EUA, depois de ser libertado pelo seqüestro comandado pelo MR-8 e ALN. (GORENDER, 2003, p. 71)
Ilustração número 04 – No aeroporto do Galeão, 13 dos 15 presos libertados em troca pelo resgate do embaixador Ellbick. (GORENDER, 2003, p. 70)

Segundo Gorender (2003, p.41):
Para os membros politizados, a Juventude Universitária Católica (JUC) se mostrava já demasiado estreita, dada a vinculação oficial à Igreja. Nasceu, por isso, a idéia de criar outro veículo de ação política, que permitisse liberdade de atuação e não envolvesse a hierarquia católica hostil à politização esquerdizante.
A AP era na verdade uma vertente protestante dentro da JUC, boa parte de sua formação inclusive se deu a pessoas sem confissão religiosas. Um grande número de estudantes universitários constituía parte da AP, contudo, ela contava ainda com a participação de artistas, jornalistas, profissionais liberais e até mesmo professores. Gorender (2003, p.42) afirma ainda que: “Desde o início, houve a preocupação de ganhar força nos meios operários e camponeses. Líderes camponeses nordestinos como José Gomes Novais e Manuel da Conceição já militam na AP antes de 1964.”
Boa parte de católicos passaram a apoiar as posições políticas de vanguarda, as reformas de base e as lutas trabalhistas, houve na verdade uma esquerdização dos fiéis.
Em junho de 1967 sargentos cassados fundam o que viria a ser a VPR. Esse era outro grupo de guerrilha contra a ditadura.
Além dos ex-membros do MNR que faziam parte do movimento de Brizola, existiam ainda os dissidentes da POLOP (Política Operária), que desta originou VPR e a COLINA (Comando de Libertação Nacional).
A POLOP se considerava triunfante em relação ao fracasso do PCB, contudo as suas ações ainda deixavam a desejar, visto que, apesar de toda a teoria e ascensão de idéias para a guerrilha armada, lhe faltava à vinculação com os movimentos de massa. Sendo assim, o foquismo foi à principal ferramenta para a POLOP deixar de ser teoria e passar a ser ação. Contudo, apesar de todo esforço, segundo Gorender (2003 p.139):

Os doutrinadores se mostraram incapazes de elaborar soluções políticas adequadas à conjuntura, estudantes e intelectuais polopistas aderem decididamente ao foquismo e reformulam a doutrina no espírito da concepção urbana. No terreno prático estreitam as relações com ex-militares que deixam de gravitar em torno do brizolismo.
A resposta para a ação veio em setembro de 1967 no Quarto Congresso da POLOP onde foi aprovado o Programa Socialista para o Brasi11. Foram discutidos ainda duas formas para chegar a ação, uma delas é da FER (Frente de Esquerda Revolucionária) que segundo Gorender (2003 p.139): “deveria reunir organizações e correntes diversas em torno dos objetivos programáticos da POLOP. Por isso mesmo, não chegou a ter existência”. A outra forma seria a proposta de foco guerrilheiro, ou seja, a guerrilha rural, contudo esta gerou incoerência entre os adeptos da POLOP, visto que essa teoria seria contra os princípios doutrinários. A partir das propostas vários membros se desligaram da POLOP e fundaram outras organizações de esquerda como a POC (Partido Operário Comunista) que apesar de ser uma organização que tinha seus objetivos operários, estes estavam em menor número que os estudantes e intelectuais que se uniram ao grupo. Outras dissidências foram o COLINA e a VPR. A COLINA a princípio se chamava Organização, ou simplesmente O. Depois em 1968 passou para o nome de Organização Político-Militar e só depois é que veio a se chamar COLINA. Esta fazia o terrorismo explícito, seguindo o exemplo de Marighella na ALN, que segundo Gorender (2003, p.140): À semelhança da ALN, o COLINA concebeu a guerrilha rural como força móvel que devia dispor de bases de apoio preparadas. As cidades servirão para fins logísticos, propaganda política, recrutamento de quadros, expropriação de fundos e ações de imobilização do inimigo (destruição de fontes de energia, de meios de comunicação e transporte etc.)
Os dissidentes da POLOP, possuíam no seu núcleo estruturante, subalternos excluídos das Forças Armadas, estudantes e operários. Além da Organização que
11 Este programa propõe o governo revolucionário dos trabalhadores como formar de transição para a ditadura do proletariado. Sobre o assunto ver: GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas. São Paulo: Ática, 2003, p.139
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mais tarde foi a COLINA, existiu outra que tomou o nome de VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) em 1968. Contando com a aliança do ex-sargento Onofre Pinto, e militantes dissidentes da POLOP que se tornaram militantes de preparados, a VPR também contou com a participação de estudantes e operários de Osasco que segundo Gorender (2003 p.143) “muitos estudantes-operários ou estudantes procedentes de famílias de trabalhadores, cuja prática cotidiana já era, por si mesma, um enlace com entre a classe operária e os meios estudantis.” A VPR além de Onofre Pinto na Coordenação Geral contava ainda com a participação do capitão Carlos Lamarca.
Sendo um dos maiores grupos armados contra a ditadura e com uma série de membros presos, a VPR teve uma queda significante e chegou a pedir ajuda da ALN. A COLINA também passava pela mesma situação e a solução encontrada foi unir os dois grupos e formar uma nova entidade, esta ficou conhecida como VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares)12. A união das duas organizações rendeu bons fundos para compra de material necessário para a guerrilha, entre esses, expropriações de cofres residenciais como da residência de Ana Capriglione e a mansão de Santa Tereza no Rio de Janeiro. Apesar dos bons lucros, com apenas dois meses de formada, reunidos no seu primeiro congresso em setembro de 1969, começaram as primeiras divergências e alguns elementos optaram por voltar à antiga formação da VPR. Segundo Gorender (2003, p.148): Ao todo, sete elementos que racharam o congresso passaram a se reunir em separado no próprio aparelho em que todos se encontravam: Darcy, Lamarca, Liszt Benjamim Vieira, José Araújo da Nóbrega, Herbert Eustáquio de Carvalho (escritor conhecido pelo pseudônimo Herbert Daniel), Juarez de Brito e Maria do Carmo Brito. Ali mesmo, as sete dissidentes deram início à reconstrução da antiga VPR. Após alguma barganha, resolveu-se a questão da divisão do espólio: armas e dinheiro. Em uma segunda versão, a VPR recebeu a maior parte das armas – já que pretendia entrar em ação imediata – e ganhou acesso à metade do fundo em dólares.
12 VAR-Palmares foi em homenagem ao maior quilombo da história da escravidão. Sobre o assunto ver: GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas. São Paulo: Ática, 2003, p.147.

A VPR teve rápida expansão, pois pretendia de imediato intensificar a luta armada. Com o apoio de Ladislau Dawbor a VPR surgiu ainda mais estruturada, exercia sua teoria de cunho marxista e possuía ainda vasta experiência militar.
Apesar das grandes vitórias em expropriação de bancos, e em tentar conter o avanço da ditadura essas organizações de esquerda muitas vezes caíram na ilegalidade e teve seus membros presos devido à falta de unanimidade.
A falta de união dentro da esquerda de certa forma facilitou a opressão do governo burguês. É possível afirmar ainda que as esquerdas não fossem uma ameaça para o governo, muito pelo contrário, à medida que os focos de resistências por parte das esquerdas iam intensificando o governo logo traçava estratégias para repelir as manifestações, aumentando a todo custo à repressão, Segundo Skidmore, (1988, p.203): “[...] As guerrilhas eram incômodas, mas também úteis porque ajudavam a justificar a repressão. A verdadeira ameaça ao governo não vinha da esquerda mas de dentro dos quartéis. [...]”, ou seja apesar de desejassem fazer revolução, as ações da esquerda serviram mais para um recrudescimento da repressão.
Para Ridenti (2003, p. 247):
No percurso para realizar o plano traçado da guerrilha rural, os grupos armados urbanos envolveram-se umbilicalmente com os principais movimentos sociais entre 1965 e 1968. Todos eles vivera, de diversas formas, dando respostas topicamente diferenciadas, a tensão entre "massismo" e "militarismo", isto é, entre a realização de um trabalho político mais sólido junto às massas, preparando-as mediatamente para a insurreição, e a exigência das ações armadas urbanas imediatas, preparatórias para a deflagração da guerrilha rural. Nesse processo, os grupos guerrilheiros ganharam a adesão de lideranças dos movimentos sociais do período, operárias, sindicais e, sobretudo estudantis.
Percebe-se que além de militantes de vários outros segmentos os grupos contaram ainda com a intensa participação dos estudantes, estes que eram os intelectuais do momento, e de certa forma conseguiam interpretar as notícias nos jornais sobre a real situação do país, pois a censura imposta impedia que o resto da população ficasse sabendo o que acontecia nos porões da ditadura.
Muitos destes estudantes aderiram aos movimentos de esquerda numa tentativa de continuar luta armada já que suas entidades, muito perseguidas caíram na ilegalidade. A UNE era principal entidade que dava base a esses estudantes, sendo esta retratada no próximo capítulo.

Autora :

Franciene Mendes, Licenciada pelas FIP