segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O Pensamento Mecanicista de Descartes.




Penso e, se penso deve existir alguma coisa. Penso, logo sou, logo existo”.
 
           Seguido de uma menção honrosa ao pensamento filosófico-científico “Penso, logo Existo”, Descartes vai propor a um mundo recém saído da era medieval o contexto do mundo moderno, a concepção revolucionária de responder a subjetividade não usando de artifícios espirituais complementados pela escolástica (que reinava todas as discussões intelectuais da filosofia medieval, principalmente na França), ou voltado aos pensamentos de uma pequena elite letrada. O novo pensamento reacionário se voltaria ao livre pensar, concepção de tentarmos responder a questões tão triviais e subjetivas ao nosso próprio ver, numa atmosfera de ascendente saber científico.

           Numa breve introdução o leitor deve estar se perguntando o porquê de uma sociedade mecanicista e não mecanizada, ou outrora mecânica. Essa abordagem é um fator de mera relevância sistemática, não sendo um total isolamento do termo “mecânico”, pois o próprio termo “mecanicismo” é derivado dos seus mais diversos vocábulos, sendo os seus singulares significados fontes de uma mesma concordância, o pensamento mecanicista creio que linguisticamente têm uma maior compatibilidade ao estudo do intelecto sendo esta a nomeação mais privilegiada e cabível ao argumento de uma tese que simbolize os estudos da mentalidade de uma sociedade.  

            Portanto, estabelecer relações de mecanicidade entre o homem e a sociedade é a discussão essencial dessa tese, o homem enquanto “ser individual” representa para Descartes uma dádiva mecânica perfeita “rés extensa” (extensão da matéria), que é autônoma em relação aos valores espirituais ou a emoção da mente, no que para Descartes representa a “coisa pensante” ou no original “rés cogitans”. Uma ruptura de valores compõe o homem cartesiano, porem a discussão argumentativa se encaixa a partir do lugar do homem na sua sociedade, nos aspectos mais divididos e analisados para cada homem compor determinada função e moldando um modelo de sociedade  maquinaria, para isso beberei da fonte de uma discussão marxista e de sociólogos que pesaram em “modelos  sociáveis” em que cada parte seleta do ofício de trabalho, caberia a sua função singular e essencial na grande e complexa máquina estatal que “controla” os homens. 


OBJETIVO GERAL


·         Compreender representações possíveis acerca da problematização da discussão mecanicista sob a ótica cartesiana, enquanto a moldagem da sociedade pelo homem e do homem por essa sociedade.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
           

·         Analisar de modo geral as imbricações de  uma realidade mecanicista do homem e do meio social em que ele vive.

·         Compreender o homem como parte do processo mecânico a partir de uma concepção cartesiana.
·         Estabelecer relações estruturais de âmbito coletivo do homem enquanto parte seleta da máquina estatal.
·         Analisar as limitações da tese mecanicista e seus efeitos perante os fatores econômico-sociais da sociedade.



FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
           
Sob um aspecto histórico o homem em sua condição de ser natural estabeleceu em torno de toda existência de vida na Terra incontáveis vestígios que provam a sua capacidade evolutiva e gradual a partir do tempo, a partir do momento em que o homem normalizou suas ações e passou a agir coletivamente, começou por assim dizer uma existência primitiva de uma hegemonia humana no reino animal, hegemonia essa apenas possível por uma política social que permitisse uma arrecadação de tributos e divisão dos saberes e técnicas de trabalho. 

O plano chave dessa fundamentação teórica creio ser a complexificação do homem enquanto agente de um corpo social, uma parte seleta e importante no processo social da sociedade antiga, seu trabalho pode ser substituído, mas no entanto sua função não. Seja na área militar, social ou produtiva, o homem enquanto ser individual estará condenado a uma vida sem grandes feitos e gradualmente esquecida (já que nenhum homem é uma ilha), notoriamente alunos de história podem naturalmente esquecer ou nem se quer ter conhecimento dos milhares nomes que construíram o império do antigo Egito, mas provavelmente eles não esquecerão que no norte da África existiu uma potência mundial na época, atravessada por um extenso rio singular e rodeado por gigantescas pirâmides que serviram de mausoléu para os soberanos, ou seja, o resultado dos esforços desses homens serão o seu verdadeiro legado. Então pensar em uma sociedade mecânica não é pensar em uma sociedade industrial e nem em uma sociedade sendo movido por máquinas, o “mecânico” ganha um significado singular no sentido de que o trabalho e o esforço dos homens em dividir as funções operacionais em âmbito social, estabelecerem metas e planejamentos estruturais, além de uma economia contabilizada (ou em um sistema de trocas comerciais bem orquestrada pelas necessidades regionais). É o homem pensando na sociedade como uma “máquina” para o seu manuseio. 

Com um olhar histórico não devemos levar esse pensamento mecânico ao pé da letra, pois as relações servis entre o homem antigo e o estado que o compunha não são relações formais e nem são relações de igualdade. O estado estava mais apto a oprimir algumas parcelas populacionais do que outras (em uma máquina, mesmo que engrenagens, válvulas ou pistões exerçam funções diferentes uma não pode funcionar sem a outra, existindo certo “respeito” entra as partes maquinárias), mas em uma sociedade humana isso não funciona bem assim e novamente tomando como exemplo o mesmo Egito antigo, não há semelhanças sociais entre escravos e escribas mesmo ambos sendo partes importantes no processo de solidificação do estado egípcio.

Antes de continuar o processo argumentativo da elaboração da tese mecanicista sobre a mecanização do homem e do seu meio, além das relações interpessoais que os mesmos exercem entre si, daremos um importante e gigantesco salto histórico, do singular império egípcio em meados da Idade Antiga para o cotidiano da Idade Moderna européia, onde o homem já definia uma relação bem mais madura com estado no qual pertencia, porém devo salientar que não existem meios de compreender a estrutura social como uma estrutura mecânica sem antes igualar o homem na mesma perspectiva, e para compreender o homem como um “fator mecânico” necessitaremos de Descartes, pois creio ser ele, a ponte de ligação do homem em sua relação “mecânica” com a sociedade. 

Há algumas concepções cartesianas que diagnosticam o homem em sua biologia como uma máquina corporal, no sentido médico em sua atualidade contemporânea, esse estudo está totalmente refutado dos ensinos básicos da medicina humana, mas sabemos que o mesmo Descartes que estudou a biologia humana com afinco também era um filósofo, e logo percebo que “desenhar” o homem pressupondo uma máquina (ao menos se adentrarmos no campo psicológico) não é totalmente errôneo, vejamos a citação a seguir: 

Descartes comparou o corpo dos animais a um ‘relógio (...) composto (...) de rodas e molas’ e estendeu essa comparação ao corpo humano: ‘Considero o corpo humano uma máquina. (...) Meu pensamento (...) compara um homem doente e um relógio mal fabricado com a idéia de um homem saudável e um relógio bem-feito. ’ (RODIS-LEWIS, 1978)”.

Se for errado ou não comparar corpo humano a um relógio nisso eu prefiro não comentar, mas e se em vez do corpo biológico assemelhássemos o homem enquanto objeto da história aos ditames do relógio, o que se poderia pensar a respeito dessa conclusão? No caso histórico, o homem não seria só detentor dos aspectos maquinários do relógio, mas também do seu aspecto simbólico que seria o “tempo”. Mesmo se o ser humano não existisse o tempo passaria da mesma forma sob as rotações terrestres seguindo suas próprias leis universais, mas sob a perspectiva cartesiana do homem-relógio, logo existirá uma série de conflitos na história sob o tempo fabricado e fabricando o homem. Para compreendermos melhor o fascínio de Descartes por uma ideologia mecânica, devemos nos situar no contexto da época moderna em que o mesmo vivera. Na Europa moderna surgira uma nova fase científica para o homem, o Renascimento, por assim dizer condizia ao homem não mais a imutável explicação teológica de como tudo funcionava, e sua principal característica é o chamado antropocentrismo como a figura primordial de como o homem devia ver o mundo, a partir de uma concepção voltada ao universo humano. 

Com um lento avanço na medicina (principalmente com a popularização do ato de dissecar cadáveres), começara-se por perceber que o corpo humano não é um copo divino e organizado de um modo especial pelo deus cristão da Europa ocidental, e quando Descartes estuda melhor esse corpo humano perceberá nele uma sincronia perfeita dos órgãos vitais com todos funcionando em perfeita comunhão com o órgão cerebral os guiando. Na proposta cartesiana o homem enfermo por quaisquer que sejam os motivos, está em plena desvantagem do homem funcional, Descartes não notabilizou este princípio as relações de trabalho com o estado, se limitando apenas ao fator biológico do “homem mecânico”, mas se esse homem enfermo tivesse reparado suas peças corporais de uma maneira não desgastante e tentado prevenir essa situação de uma maneira mais responsável possível (isto é, se aplicarmos a analogia do relógio), teria ele conseguido fazer funcionar um relógio mais eficiente e tal como um “relógio”, seu tempo de vida igualmente aumentaria. Aplicar a perspectiva cartesiana da relação homem-relógio é trabalhar não só com fatores biológicos, mas também relações de trabalho entre os homens e com o estado (a existência do tempo de trabalho em sua relatividade) é perceber o homem de uma maneira pré-evolucionista (já que o “relógio” mais eficiente triunfará sobre o relógio claramente defeituoso) e com uma abordagem filosófica das nossas “predisposições” a fazer algo de uma maneira previsível (nessa parte vemos a conexão da história do homem com sua capacidade de repetir constantemente o passado). 

Portanto o exato sentido da “mecanização” do homem em sua individualidade na proposta cartesiana da época moderna culminou para aquele de quem lida com a história em si enxergar alguns fatos na história humana que são passíveis de serem pensadas sob um ponto de vista mecanicista, outrora bem anterior a Descartes, além de conjugar essa perspectiva individual para uma abordagem de âmbito coletivo como a mecanização do “meio” pelo homem, ou do “homem” pelo meio, por intermédio da relação de contrato social enfatizado por John Locke ou pela análise marxista de enxergar o operário como detentor dos direitos dos meios de produção (a partir da ótica do materialismo histórico), como também aplicado aos ditames do capitalismo financeiro do século XX.

Contudo não basta perceber apenas as dimensões cartesianas do pensamento mecanicista do homem, já que como falei anteriormente e vale à pena ressaltar de novo, não devemos levar a questão da mecanicidade humana ao pé da letra, diagnosticar a perspectiva mecanicista na sociedade humana só pode ser possível quando lidamos com apenas algumas disciplinas acadêmicas do conhecimento humano, e aplicar a lógica cartesiana (onde tudo deve ser dissecado e estudado minuciosamente a partir de partes isoladas do processo) sincronizou perfeitamente com o estudo histórico da sociedade no tempo, pois a capacidade de separar fatos e investigá-los de maneira detalhada e isolada do processo como um todo, é basicamente o trabalho do historiador. No mais, a mecanicidade do homem enquanto sujeito histórico será apenas tomado pelo ponto de vista coletivo, aliás, ninguém faz história sozinho na perspectiva de desenvolver rupturas sociais e políticas de acordo com seu tempo, penso que será as definições oriundas na mecanicidade do homem e da sociedade, que passaremos a enxergar um novo tipo de conhecimento histórico, uma escola do conhecimento que está mais preocupada em entender a funcionalidade repetitiva presente na história, do que a análise de um fato isolado na história. 

O trabalho do historiador mecanicista consistirá em analisar de uma forma mais “cartesiana” possível as diferentes partes do processo e suas conexões com as partes anteriores, e frequentemente imaginar (com certa criatividade talvez) o espaço histórico dos novos fatos. Como exemplo, podemos averiguar os processos revolucionários que se mostraram presentes no contexto “geral” da história, tais revoluções em seu contexto singular são distintas uma das outras (pelo menos nos seus fatores mais superficiais), porém a ideia central e presente na raiz dos acontecimentos se conectam com outras perspectivas revolucionárias a partir do espírito de revolta, o anseio por mudanças (estruturais ou não), além de um profundo desejo de fazer valer a “voz” dos revoltosos mostrando sua existência para a sociedade. Portanto estas estruturas centrais estarão preservadas na sistematização histórica, seja em processos revolucionários, ou em tirania absoluta, e talvez no próprio poder de decisão de uma nação, a máquina infalível da história nos apresentará tendências que serão incorporadas em vários povos, mas também tendências que poderão ser revisadas a partir de um modelo atual, ou simplesmente abandonadas e deixadas para morrer se o conteúdo se mostrar impróprio para o cotidiano social, econômico, ou político da sociedade.

Para finalizar minha argumentação a respeito da tese mecânica de como o homem passa de “ser” natural para um “ser” mecânico e sistemático, há basicamente o discurso evolucionista que serve como base, mas também existe o discurso da capacitação do homem através das diferenças, sobretudo quando ele adquire habilidades e técnicas que lhe põem em clara vantagem perante o meio animal, a partir de uma incorporação de experiências com outros povos, será esse o diagnóstico mais preciso que posso fazer no que creio ser o “atributo da mecanicidade”, saber analisar os defeitos das partes da máquina em comparação a uma máquina mais produtiva e eficiente, se aperfeiçoar de um modo organizado planejado, conseguindo assim colher os frutos do empreendimento da mudança. A assimilação do conhecimento histórico tal como um ciclo de repetições de momentos na história humana é um meio de cientificar o modelo histórico a partir de uma hipótese histórica, que permite enxergar uma reinterpretação do modo de fabricar o conhecimento histórico.  
Thomaz Caetano,
Licenciado Pelas Faculdades Integradas de Patos.



REFERÊNCIAS

CAPRA, Fritjjof. The turning point: Science, Society, and the Rising Culture. Flamingo Press, 1990.
DESCARTES, René. Discurso do método. 2ª ed. Lisboa: Guimarães Editores, 1994.
DESCARTES, René.  Princípios da Filosofia. Lisboa: Presença, 1995.
RODIS-LEWIS, Geneviève. Descartes: Textes et Dèbats, Livre de Poche, 1978.
MINDWALK, Dirigido por Bernt Capra. Produzido por Klaus Lintschinger. Estados Unidos: Triton Pictures, 1990. (112 min.): VHS; Ntsc; son; color. Legendado. Port.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário